domingo, 1 de junho de 2008

Outros (sobre)viventes


Falei (escrevi) anteriormente sobre as árvores que se sustentam na ponte da Bandeirantes mas nem falei dos que moram sob ela. Há uma família que mora lá faz algum tempo: marido, esposa, duas crianças, além de outras pessoas que se reúnem ali para se aquecerem na fogueira.

Durante o ano de 2001, eu acho, fiz parte de um grupo de amigos que faziam sopões e distribuíam para moradores de rua em Guarulhos. Oficina da Vida era seu nome, e é estranho eu lembrar disto agora, pois achava que estava enterrado em algum lugar de meu cérebro.

Sempre atendíamos pessoas sozinhas, sem família, geralmente nascidas fora da cidade ou mesmo do estado. Creio que o caráter da miséria em minha cidade se difere à do centro de Sampa porque aqui em Guarucity, quando o cara arruma família ele simplesmente se muda para a periferia, ocupando áreas públicas ou privadas, ou comprando barracos.

Para o morador de São Paulo, com cada metro quadrado ocupado, talvez morar longe não seja atraente. Além do quê, pode haver outros componentes nesta fórmula.

Muitos não chegam as ruas mas nascem nelas, como essas mesmas crianças que, vez ou outra, aparecem na lanchonete pedindo trocados. Habituam-se então a ter aquela como sua vizinhança, estabelendo assim laços com o local, mesmo que as pessoas que moram ali, os "integrados" na sociedade.

Ainda penso nas crianças que vejo pela janela da escola. Uma vida de mendicância em tão tenra idade, pelo Divino! Comparo-as com meus sobrinhos, e como as mães deles se preocupam com seu bem-estar, fazendo coisas triviais como não lhe largar as mãos enquanto caminham nas ruas e, nem em caso de emergência, deixa-las soltas à noite entre estranhos.

No entanto ali vejo dois meninos vivendo entre carros e desconhecidos, expostos. Pensamentos assim escurecem meu coração. Uma árvore desde seu nascimento é preparada para sozinha resolver seus dilemas de sobrevivência. Nós seres humanos somos mais frágeis: não resistimos muito tempo no calor ou frio intensos, sem água ou comida por muito tempo, ou apartados do meio social. No entanto ali, sob a ponte, uma sociedade se faz em separado, marginal.

O encontro destes dois mundos nem sempre é harmonioso, mas regrado por relações de poder e violência, aberta ou veladamente. Em nome da sobrevivência faríamos e fazemos coisas que emergem aquilo que há de pior no humano. Pensamentos assim me deixam sombrio à noite.

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